- Como foi lá pai? Como ele tava?
- Nada bem meu amor. Muito abatido, muito triste. Olhos roxos de tanto chorar.
- E o bebê?
- O bebê tá bem. Tá na incubadora ainda. Só sai semana que vem.
- Por que tanto?
- Ele nasceu numa situação complicada amor, tem sorte de ser tão forte.
- E o enterro dela quando é?
- Amor, o enterro dela foi hoje.
- O quê?! Por que o senhor não me disse?
- Amor, calma. Não queria que você fosse. Não ia ser bom para você. Eu sei que você ficou ressentida com isso, mas não ia ser bom para você.
- O que não é bom é o senhor fazendo isso! Eu queria ter ido!
- Filha! Calma. Confie em mim. Por favor, confie. Eu sei como eu fiquei só de ver o pobre do Jonas, não queria que você ficasse assim também.
Samara sai apressada da sala em direção ao quarto, revoltada com a proteção excessiva do pai.
- Filha! Filha! Me desculpe, eu fiz o que achei melhor pra você. Acredite em mim.
Deitada na cama, triste com aquilo tudo, Samara chora. Não sabe mais se de raiva com o pai, pela dor da perda, e o que mais a intrigava era o fato de que não conviveu mais do que 15 minutos com aquelas pessoas, ou um misto de tudo. Tinha sido um dia muito cansativo, muito angustiante e triste. O colégio não foi bem, não conseguia se concentrar em nada. Nem conversar com Juliana sobre o ocorrido lhe acalmou.
Samara nem lembra a que horas pegou no sono, mas já era manhã de quarta feira, 5:00 da manhã. Muito cedo. Geralmente ela acorda às 6:15, apulso, para ir a escola. Parecia mais aliviada, mais calma, apesar de sentir o rosto um pouco pesado, um tanto como inchado por conta do choro. E de fato estava com olheiras. Sem que seus pais percebam Samara já está na cozinha, pronta para ir a escola, fazendo seu desjejum.
- Bom dia amor.
- Bom dia mãe.
- Bom dia minha querida – diz seu pai, olhando-a com cuidado, como se esperasse alguma grosseria.
- Bom dia painho.
- Espero que você não esteja mais chateada comigo.
- Passou painho. Deixe isso pra lá.
- Certo.
A semana termina, o fim de semana passa e Samara ainda não estava normal. Não teve vontade de ir ao cinema, de ir ver as amigas. Ainda estava muito reflexiva, cada vez menos triste, é verdade, mas reflexiva. Na escola conversava com Juliana, mas ria de poucas coisas.
- Alô?
- Alô, Samara?
- Sim, quem é?
- Aqui é Jonas, não sei se você ainda lembra de mim.
- Lembro! Claro que lembro!
- Eu queria agradecer por ter guardado e devolvido a bolsa da minha mulher. Eu agradeci a seu pai, mas queria agradecer a você.
- Não precisa agradecer – um silêncio se segue, Samara não sabe o que falar, na verdade não sabe se fala o que tem em mente. - Eu que queria deixar meus sentimentos. Eu ainda estou muito triste com tudo o que aconteceu.
- Não se preocupe, eu vou ficar bem.
Samara estava constrangida, não sabia se deveria ter dito aquilo.
- O bebê está bem?
- Ela está ótima. Sai amanhã da incubadora.
- Eu queria poder vê-la.
- Você pode vê-la
- Quando?
- Ela sai amanhã, vai demorar um tempo pra eu me acostumar a cuidar dela. Não sei, mas posso tentar sexta.
- Certo, falarei com meu pai. Agora eu tenho que ir, a aula já vai começar.
- Desculpa! Não queria atrapalhar.
- Nada. Espero que o senhor fique bem mesmo.
- Pode me chamar de Jonas. Eu estou me recuperando, a dor é grande, mas estou me recuperando. Obrigado mais uma vez.
- Não precisa agradecer. Tchau.
- Tchau.
Samara fica uns segundos quieta. Não esperava que um dia fosse ver a criança. O silêncio é interrompido por Juliana.
- Sami? Sami? Oi?
- Oi, desculpa.
- O que foi?
- Era o pai da menina, aquele do ônibus, lembra?
- Claro que lembro. Eu também fiquei triste. O que ele queria?
- Agradecer pela bolsa. Acho que vou ver a menina.
- Como assim? Você vai na casa dele?
- Não, se for vamos marcar em algum lugar público. E meu pai vai saber.
- Eu quero ir também.
- Como se eu não fosse te chamar.
- Quando vai ser?
- Se tudo der certo, sexta.


